Archive for the ‘Resenhas’ Category
Teorema do Papagaio - Denis Guedji
Written by Volponi on 18/1/2002 – 3:41 -Eu devia ter percebido. O subtítulo é “Um thriller da história da matemática”. Desde Michael Jackson que eu não reconheço nenhum bom thriller. Bom, chega de papo furado. Vamos ao livro.
O thriller (ainda vou aprender a soletrar isto aqui) se passa em plena Montmartre, Paris. Uma casa escalena formada por um livreiro paraplégico idoso, uma senhora que administra a loja e os três filhos dela, um surdo mais dois gêmeos. Mais tarde, o menino surdo encontra um papagaio que estava sendo maltratado no Mercado de pulgas, e o leva para casa. O ponto de conflito na história é uma remessa de livros que chega de Manaus, de um velho amigo desse livreiro. Os livros todos são sobre matemática, alguns raríssimos. E o amigo manda estes livros porque aparentemente sabia que eles iriam se perder num incêndio. Depois esse amigo morre, dando ao autor do thriller um gancho para seu thriller e o desenrolar da história da matemática.
É impossível deixar de comparar este livro com o Mundo de Sofia. Os dois livros têm um enredozinho. Os dois tentam explicar e contar a história de uma ciência. Os dois são voltados para o público leigo. Só que tem um detalhe, para mim importantíssimo: Gaarder é muito mais escritor que Guedj. O enredo do Mundo de Sofia é mais intrigante e bem montado que este do papagaio. Talvez eu esteja sendo um pouco injusto: filosofia é também mais interessante (e humano!) do que matemática. O autor francês até que tentou bastante, mas não conseguiu muita coisa não. Me pareceu um livreco para adolescentes, apesar de ser um livro um tanto extenso. E, se é possível transmitir e questionar conceitos filosóficos com qualquer pessoa (assim o disse Sócrates!), talvez o mesmo não ocorra com matemática. Por isso, a história da matemática ficou muito superficial. Na verdade, eu gostaria de ver mais demonstrações, sacadas matemáticas, porquês e o-quês. Mas ficou ali, na história dos gregos, um ou outro mito, uma ou outra sacada. Mais interessante no começo, com os gregos, talvez porque a matemática deles ainda era muito linear, apesar de importantíssima. Quando chega em Fibonacci, Newton, Euler, Fermat, o autor escorrega. E só transmite grandes linhas gerais.
Um ponto positivo sou obrigado a assinalar: o cara dá valor mesmo aos matemáticos islâmicos. Ainda bem. Quando se fala em ciência, toda a sociedade ocidental sempre se esquece que, durante o Império Romano, a única coisa que se desenvolveu foi o aparato administrativo e a sua expansão, nada mais. Ou você ouviu falar de um Pitágorus? Ou Talesium? Não, claro que não. Os romanos não fizeram nada pela ciência, por isso que a Europa entrou na Idade Média mais ignorante que a média dos gregos livres, mil anos antes. Se não fossem os árabes (e os indianos), não teríamos tão desenvolvidas essas ciências que temos hoje, como a medicina, a astronomia, a filosofia e toda a matemática. No livro tem histórias deliciosas sobre estes grandes matemáticos que nenhum de nós ouviu falar, como Hasha (cujo nome deu origem a hashasin, ou seja, assassino), e outros. Interessantíssimo.
Depois de ler um livro desse, tenho que escolher muito bem o próximo. Agora, tenho que trabalhar com o outro lado do cérebro, senão eu fico maluco e entro em parafuso. Quem mandou se meter com números? Alguém tem um livro de pop-art aí?
Posted in Resenhas | 4 Comments »Contos Libertinos - Marquês de Sade
Written by Volponi on 11/12/2001 – 16:11 -Comprei gato por lebre. Exatamente. A idéia que eu faço (fazia?) do Marquês de Sade é a visão moderna de um cara libidinoso, pervertido, libertino. Por isso, esperava muita coisa “forte” em seus contos. Claro, não esperava nenhuma maravilha literária (afinal, é só um livretinho vagabundo), mas esperava sim algo contundente, algum posicionamento a respeito da sexualidade muito contrastante com o existe por aí. Pôxa vida, de onde veio a palavra “sadismo”?
Pois bem, fiquei decepcionado. Os contos de Sade são, sim, libertinos. Mas não é nenhum absurdo não. As histórias poderiam facilmente ser sub-tramas de amor e traição de qualquer novela das oito. Não chega a chocar ninguém, portanto. Tem histórias de corneados e corneantes. Uma sobre homossexualismo que se transforma quase em uma defesa do heterossexualismo. E umas duas envolvendo padres. Parece, pelo decorrer dos textos, que Sade gosta mesmo é de cutucar (epa, epa!) o cinismo religioso. O anticlericalismo percorre quase todas as histórias, e muitas vezes os dogmas da religião católica são ironizados, e padres pintados como grandes calhordas. Tirando isso, o que sobra é bobagem. Uns contozinhos muito vagabundos, sem nenhum erotismo, crítica forte ou enredo interessante.
Talvez, na época do Marquês (pós-Revolução Francesa), estes textos poderiam ser extremamente libertinos. Entretanto, hoje em dia, tirando o anticlericalismo, seriam facilmente transportados para qualquer “Sabrina”, “Júlia” e etcéteras da vida. Será que foi a nossa sociedade que ficou mais libertina e menos dogmática, ou será que minha expectativa de muita “sacanagem” não me permitiu ver as “cenas fortes” que enrubesceriam minha namorada?
De qualquer forma, é bom ler um livro que nos traz questionamentos. Mas ainda tenho outro livro do Marquês para ler. Vamos ver se tenho paciência para mais textos ruins.
Posted in Resenhas | 15 Comments »Prime Time Society - Conrad Kottak
Written by Volponi on 29/10/2001 – 15:40 -Acabei de ler este livro no final de semana. Ele fala sobre o assunto de meu TCC de graduação, programação de tevê. O mais interessante é que o livro, apesar de ser escrito por um americano, é sobre o Brasil. Ou melhor, uma comparação entre a influência da TV na sociedade americana e na brasileira. O cara fez um senhor trabalho antropológico. Pegou 4 cidades rurais com diferentes graus de exposição à TV, no Pará, na Bahia, em Santa Catarina e Sergipe. E tirou várias conclusões sobre a influência da telinha, coisa impossível de fazer numa sociedade altamente mediatizada como a americana.
O que mais vai me ajudar no trabalho, entretanto, é que a maior parte da argumentação do cara é baseada nas telenovelas. Obviamente, as telenovelas da Globo. E ele traça um paralelo entre o chamado “padrão Globo de qualidade” e o padrão McDonalds. É, é isso mesmo, McDonalds.
Segundo ele, a chamada “qualidade global” não está ligada a uma programação/produção excepcional (outstanding), mas sim a algo em que se possa confiar. Não faz referência a algo extraordinário, mas sim a algo mediano, rotineiro e que não traga surpresas. Assim como o McDonalds. Quando alguém vai atrás do McDonalds, não busca o melhor sanduíche da cidade. Mas ele sabe exatamente que vai ter lugar pra estacionar, sabe como será a decoração do lugar, que tipo de gente frequenta, qual o cardápio e o sabor dos lanches e quanto vai pagar. É como um oásis de certeza em um mundo cada vez fragmentado. A programação das novelas da Globo, e por extensão, sua programação inteira, representa um ponto de apoio para as pessoas, elas sabem que verão não necessariamente algo bom, mas sem dúvida algo que se possa ter algum (e enfatizo o “algum”) interesse.
Impressionante.
Posted in Resenhas | No Comments »Hamlet - Willian Shakespeare (trad. Millôr Fernandes)
Written by Volponi on 19/9/2001 – 21:03 -Para não concorrer com as milhares de resenhas e livros e teses e textos sobre esta peça do Bardo, minha saída é fazer comentários pessoais sobre como “senti” o texto. A tradução do Millôr ajuda muito nisso, por ser não-convencional e certamente não-erudita. Somente em passagens importantes do texto é que a estrutura de poesia é mantida. No resto da peça, a tradução adaptou muito bem a linguagem aos dias atuais, com termos que certamente não devem aparecer nas traduções clássicas de Shakespeare. Isto tem grandes vantagens (como poder “sentir” a história melhor e mais fielmente) e grandes desvantagens (a de perder a beleza da construção poética). Para um interessado na estética e na linguagem shakespereana, a saída é ler o original. Já tentei ler Othelo do inglês, e mal passei da terceira página. Paciência. Um dia chego lá.
Hamlet traz à tona vários questionamentos sobre a vida e a índole humana. Como todo texto shakespereano, aliás. Mas, a meu ver, dois são os pontos mais interessantes da peça: a lealdade e a loucura.
A lealdade, desde o primeiro ato, permeia toda a história. A lealdade infalível de Horácio para com o príncipe Hamlet, que o avisa sobre a aparição do fantasma do pai e faz o discurso final. A falta de lealdade do Rei da Dinamarca, Claudius, tio de Hamlet e assassino de seu irmão. A indecência da mãe de Hamlet, Gertrudes, que aceita se casar com o cunhado 2 meses depois da morte do marido. A falsa lealdade de Polônio, bajulador barato. As relações da corte dinamarquesa, que deveriam ser baseadas em lealdade, mostram-se na verdade o contrário disso. Hamlet, através do fantasma de seu pai, conhece a traição do tio, e de sua mãe por tabela. A partir daí, desmonta-se uma rede de intrigas e traições, detonadas pela obstinação do príncipe em vingar a morte do pai. Hamlet põe em dúvida todas as lealdades que o rodeiam, inclusive a de seu amor por Ofélia, excluindo somente a do bravo Horácio. No final, múltiplas traições põem fim à vida do Rei, da Rainha, de Laerte (irmão de Ofélia), dos amigos Cornélius e Rosencratz e, claro, do próprio Hamlet. Um exemplo clássico de trama trágica.
A loucura é o outro ponto importante. A partir do momento que descobre as traições no reino, Hamlet se finge de louco para poder agir livremente na corte. Na verdade, à partir deste momento, a voz mais eloqüente da peça passa a ser a loucura do príncipe. Tal um bobo da corte, que pode dizer todas as verdades sem ser importunado, Hamlet começa a desconcertar seus interlocutores com afirmações categóricas e não-usuais sobre as atitudes de seus “leais” companheiros. Enquanto estes últimos tentam manter as aparências através das frases-feitas e costumes da corte, Hamlet destrói cada altivez à sua volta às vezes com metáforas incisivas e outras vezes com palavras duras. Mas sempre dando a impressão de que estava fora de si. Ele chega a dizer a Ofélia que seu interesse por ela não era nada mais do que algo passageiro; um interesse de um príncipe que não tem o que fazer. Ofélia, impressionada com a atitude do homem que dizia que a amava, e com o assassinato casual de seu pai por Hamlet, entra também na loucura. Mas de maneira real. O fim de Ofélia é morrer afogada no rio, louca de amor e de desgosto. Uma insanidade planejada e outra real. Os dois pólos amorosos, loucos, numa peça em que a paixão é jogada em segundo plano. Imerso na teia de vingança que ele próprio armou, Hamlet não tem outra saída senão dar cabo à sua empreitada, e entrar no jogo para destituir o rei e vingar o pai.
Também a honradez, a fé, o sentido da vida e o jogo político fazem parte da peça, sem dúvida. Mas comentar todos os aspectos de um texto destes seria pretensão demais de minha parte. Contento-me em sugerir a leitura do livro, para apreciar (e se horrorizar, claro) com as diferentes facetas do ser humano. E fico torcendo para surgir uma montagem de Hamlet nos teatros de São Paulo. Sem nenhuma releitura pós-moderna e ambientada nos morros cariocas, por favor. Se for somente uma tentativa de encenar o que o Bardo propôs, já seria magnífico.
Posted in Resenhas | 3 Comments »Infância - Graciliano Ramos
Written by Volponi on 3/9/2001 – 16:09 -Até hoje, não consegui formar uma opinião definida sobre Graciliano Ramos. Vidas Secas é comovente, São Bernardo é duro como pedra, mas tem muita (falta de) sensibilidade humana. Infância tem um misto: é a história de vida do próprio Graciliano, a história de vida de uma criança em um meio agreste. Como toda história de infância, é doce, sensível, e triste. E mais triste ainda por causa do meio em que ele viveu: pais ausente, mãe sem delicadeza, ambiente pedregoso. É a história de um menino que não tem consciência de si mesmo, só a adquire muito mais tarde. Ou melhor: só permitem que ele a adquira muito mais tarde.
O livro é formado por pequenos capítulos, cada um encerrando uma visão fechada sobre um aspecto da vida do pequeno Graciliano: a casa no sertão, a mudança para Buritis, a lojinha do pai, a primeira ida ao colégio, o padre. Há partes muito interessantes, outras muito enfadonhas. Como toda história real. As partes interessantes valem pelas enfadonhas? Depende. Se você estiver interessado, como eu, em observar como se forma a vida e a visão de vida de uma pessoa, vale a pena. Se você quiser ler um livro para ver a linguagem, a beleza do texto e suas passagens, vale a pena. Mas pela história simplesmente, não. Graciliano mostra, em todos os livros que li dele, muita amargura e pessimismo (mas não exatamente pessimismo) nos seus textos. Infância não é diferente.
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Um aviso a quem quer que chegar aqui: não “forneço” resenhas, não sou especialista em Graciliano Ramos nem nada. Acima, escrevi algumas impressões pessoais sobre o livro. Quer copiar? Fique à vontade, eu nunca vou saber mesmo. Mas nem adianta “cobrar” por mais, certo?
Olha só que engraçado, aí embaixo. Todo mundo quer uma resenha. Ninguém foi atendido.
Posted in Resenhas | 68 Comments »O Processo - Kafka
Written by Volponi on 3/9/2001 – 15:48 -Um processo obscuro, personagens inquietantes e um texto inacabado. Kafkiano ao extremo. Como o outro livro que li de Kafka, o clássico “A metamorfose”, este livro mostra uma sociedade/vida absurda e ao mesmo tempo lógica, através da saga do personagem Josef K. em conhecer o que se passa com o seu “processo” judicial.
A história se resume em poucas linhas. Na manhã em que completava 30 anos, Josef K. é detido em sua própria casa. A acusação? Desconhecida. O tribunal? Obscuro. O processo? Inatingível. Apesar de estar detido, ele pode viver normalmente, trabalhar. Mas toda a sua vida é transformada de acordo com os trâmites. Os juízes, assim como todos os integrantes desse tribunal aparentemente “paralelo”, são corruptos. Os termos e os usos do processo são inteiramente herméticos, só se conhece pequenas partes, e de forma indireta. Ainda assim, o processo mantém sua coerência interna, com os funcionários, lugares e acusados movendo-se infinitamente sem chegar a nenhuma conclusão.
O livro, o texto e a ambientação ajudam a transmitir todo um clima de escuridão. Prédios negros, névoa, ar abafado. O texto é um ar abafado que não permite nem um segundo de ar livre. E, tal como Josef K., você se sente preso, congestionado, angustiado com a situação. A busca pela lógica e pela saída do processo é incessante. Mas ela não chega. É um Kafka, não se esqueça. A saída lógica (”nossa” lógica) não existe. O mundo é outro, a situação é difusa, segue suas próprias regras. Ao entrar dentro do mundo do livro, compartilhamos o medo do personagem. E temos medo lógica da nossa própria sociedade, tão diferente e tão parecida com a dele. E o que é mais intrigante: como é um livro inacabado, o próprio leitor faz parte de outro processo: o de desvendar um texto que traz à tona muitas perguntas, e (ainda bem!) nenhuma resposta. É tudo por sua conta, o processo é seu.
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