Cidades Invisíveis - Ítalo Calvino

Written by Volponi on 15/3/2004 – 14:06 -

Uma viagem por cidades imaginárias. Uma coleção de poesias em prosa. Um diálogo fantástico entre dois grandes nomes da Idade Média. Calvino consegue fazer de tudo isso (ou por tudo isso) um livro sutil e instigante.

O argumento é bárbaro: o comerciante genovês Marco Polo encontra-se com o imperador mongol Kublai Khan, neto do grande Gengis, na capital do império, durante o século XIII. O imperador não pode sair da capital e, para satisfazer sua curiosidade, Marco Polo descreve a ele as cidades e os lugares por onde passou.

Narrações curtas, poéticas, carregadas de imaginação. E com um detalhe, todas com nomes de mulher. O livro descreve 50 delas, divididas em vários tipos: as cidades e a memória, as cidades delgadas, as cidades e as trocas, as cidades e os mortos, as cidades e o céu.

Entre essas descrições, aparecem os diálogos entre o genovês e o mongol. E estes diálogos são chaves para discussões literárias e filosóficas sobre o que é narrado e o que é apreendido; sobre a cidade para seus habitantes e para o visitante; sobre o tempo e as cidades; sobre imaginação e realidade; e muito mais.

Mas as grandes pérolas são as cidades. Calvino consegue criar descrições de cidades fantásticas, que nos colocam sempre a pensar e a imaginar nossa relação com os ambientes ao redor. Cidades que são espelhadas, metrópoles inconscientes de sua história, povoados formados apenas por tubos hidráulicos. Em cada uma, uma sugestão. Em cada uma, uma imagem. Em cada uma, uma poesia.

Calvino consegue deixar claro que, mesmo invisíveis, essas cidades coexistem na história, na memória e, principalmente, na imaginação de cada um.

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Introdução a Sistemas de Banco de Dados

Written by Volponi on 1/1/2004 – 16:43 -

Introdução a Sistemas de Banco de Dados - C.J. Date

C.J. Date é, ao lado de E.F. Codd, um dos maiores gurus de banco de dados relacional. Juntos, eles foram os responsáveis por inventar esse tipo de sistema, ainda na década de 70, e estudar profundamente seus conceitos, para formar uma estrutura matematicamente embasada.

Este livro explica o que é um DB relacional e todas as suas características. É um livro de teoria, voltado para estudantes de ciências da computação (aparentemente) em que os exemplos são dados em pseudo-código, e a linguagem SQL é colocada em oitavo plano. Na verdade, o autor argumenta, em vários momentos, que o sistema relacional nunca foi 100% implantado por nenhum SGDB (Sistema de Gerenciamento de Banco de Dados). Há muitas lacunas nas implantações comerciais, o que acarretam problemas conceituais e de desempenho.

Para chegar até esse ponto, o livro explica o que é um banco de dados e detalha a diferença entre os principais tipos de DB. Também vai, passo a passo, introduzindo o leitor na terminologia da matemática relacional, com suas relações, tuplas, domínios e predicados. O livro inclui capítulos sobre cálculo e álgebra relacional, algoritmos de operações sobre dados, visões, otimização, gerenciamento de concorrência, restrições, normalização, lógica trivalorada, segurança, criptografia, DBs orientados a objetos, e muito mais, em quase 700 páginas recheadas de referências bibliográficas e exercícios em cada capítulo. No fim, ainda há espaço para apêndices sobre SQL (SQL/92 e SQL3).

É uma referência de peso, feito para quem acha importante conhecer conceitos e descobrir que houve, sim, muita discussão lógica na hora de inventar algo que deu suporte e revolucionou o mundo da computação.

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Desenvolvendo E-Commerce com VB, ASP e SQL Server

Written by Volponi on 17/8/2003 – 10:16 -

Desenvolvendo E-Commerce com Visual Basic, ASP e SQL Server - Noel Jerke

Um livro que promete muito. Ele realmente desenvolve uma aplicação de e-commerce, usando VB, ASP e SQL Server. Mas a capa do livro tem um “VB” imenso. Só que, por dentro, o VB não tem sequer 2 páginas de utilização. E o aplicativo nem precisava ser em VB, foi uma senhora forçada de barra. Outra coisa que o livro promete é usar “ferramentas Microsoft”. Introduz o Interdev, mas não usa nada. O único aplicativo MS mesmo é o SQL Server.

Bom, dizendo o que ele não é, posso começar a dizer o que ele é. O livro de Noel Jerke explica, passo-a-passo, como criar uma loja virtual. E é uma loja razoavelmente sofisticada, incluindo aplicações para venda casada, venda aumentada e um calculador simples de taxas e frete.

Este não é um livro para iniciantes. Para bem utilizá-lo, é necessário conhecer bem ASP, VBScript e conceitos de banco de dados. O livro não explica nada destes tópicos, o que é uma vantagem: concentra-se apenas na aplicação de e-commerce, as funções necessárias, as ações do usuário contra o banco.

A principal vantagem para mim, um não-analista de DB, foi justamente uma estrutura pronta de DB para e-commerce e suas funções feita de forma coerente. Categorias de produtos, atributos, cesta, pedidos, clientes. Ficou fácil adaptar a solução para uma aplicação real, mesmo sem utilizar os cadastros de cliente e sistema de frete. Cai como uma luva. Ou seja: é uma excelente opção para saber por onde começar, e dá bons indícios dos recursos (de banco e programação) que serão necessários numa loja virtual.

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O Grande Gatsby - F. Scott Fitzgerald

Written by Volponi on 20/7/2003 – 15:24 -

Influenciado pelos comentários do Luís Fernando Veríssimo em várias de suas crônicas, resolvi ler algum dos grandes escritores americanos. Em vez de Hemingway, encontrei primeiro este livro.

A história é contada em primeira pessoa onisciente, e o eu-lírico é de um jovem californiano (Carraway) que se muda para Nova York nos anos 20, atrás de trabalho e um pouco de agitação. Mas o personagem principal é Jay Gatsby, um ser misterioso que promove festas ininterruptas para toda a “sociedade” novaiorquina, cuja personalidade e história ninguém conhece. Entretanto, todos os seus convidados sempre conjucturam sobre quem é, de verdade, o anfitrião.

Carraway mora ao lado da mansão de Gatsby, e, aos poucos, vai entrando no mundo excêntrico do vizinho. É exibida as entranhas do jet-set da cidade, com toda a frivolidade e falta de profundidade. Os convites inexistem, mas as “estrelas” lá estão, todas as semanas.

O único a prestar atenção efetivamente em Gatsby é o narrador, que tenta, aos poucos, descobrir quem é ele. Mas, ao contrário de todos os outros, o faz de maneira desinteressada. Torna-se seu único amigo. Um amor proibido e uma história envolvendo o passado de Jay estão no clímax do romance.

A linguagem não me chamou a atenção, nem o ritmo, nem o tema, nem a história. Pelo menos, é curto. Da próxima vez, atacarei Hemingway.

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O Crocodilo - Fiódor Dostoiévski

Written by Volponi on 6/4/2003 – 18:07 -

Um casal russo, com a companhia de um amigo, vai ver a nova atração na cidade: um crocodilo, vivo, de propriedade de um alemão. Depois que o marido vai parar dentro do animal (sim, ele chega tão perto que se aloja lá), começa a farsa. O dono do crocodilo quer uma indenização, já que agora seu crocodilo corre risco de vida. O marido, apesar de instalado confortavelmente dentro do animal, fica preocupado em manter seu cargo no governo, aliás, justo agora em que ele estava pleiteando uma promoção. A esposa não vê a hora em que tudo isso acabe, para que ela possa se consolar com mais homens. E o amigo narra a história, sem saber se apóia o coitado, se mantém as aparências ou se negocia com o alemão.

Uma história surreal, fantástica. E, assim como O Processo, mais um livro inacabado. Portanto, é inevitável a comparação. Logo de cara, uma constatação: Kafka foi muito melhor. O Processo, apesar de inacabado, é um livro quase pronto para publicação, ao contrário de O Crocodilo. Dostoiévski monta apenas uma estrutura cômica, cujo desenrolar é reticente. Não chega a desatar, apesar de ter criado um nó incomum. A farsa russa, pelo menos, consegue colocar em perspectiva (pela distância irônica) as hipocrisias da classe burocrática pré-revolução, coisa em que Kafka nem resvala.

E só.

O volume inclui ainda o ensaio (ensaio?) Notas de Inverno sobre Impressões de Verão, em que o autor conta, após voltar a São Petersburgo, suas idéas sobre a viagem feita à Europa, o continente-referência cuja imitação é imprescindível para os russos. Nesse aspecto, aliás, muito parecido com aquele sentimento terceiro-mundista brasileiro. Nos capítulos, muitos comentários sobre a loucura francesa, o ritmo inglês e as comparações com a pátria. E só.

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O Livro de Ouro da Mitologia - Thomas Bulfinch

Written by Volponi on 19/2/2003 – 13:06 -

Decepção. Esta é a palavra que define meu sentimento sobre este livro. Pensei que eu pudesse, finalmente, jogar uma luz sobre as mitologias grega e romana. Mas o livro ajuda muito pouco: ele é mais confuso do que eu. Para começar, ele privilegia a nomenclatura romana. E eu estou mais acostumado (acho) aos deuses gregos. No começo do livro, os nomes gregos são apresentados em parênteses. Mas, logo no primeiro capítulo, essa regra é quebrada, com nomes romanos alternativos nos parênteses. Daí para frente, é um deus-nos-acuda. Nada de nomes gregos. Já ouviu falar em Héracles?

A cada capítulo, uma coleção de personagens, mesmo que desconectados. A cabeça vai a mil, com tantos deuses e inter-relações perigosas. O esquema não fecha. É terrível. A única desculpa seria que o livro foi escrito no início do século XIX. Faz tempo. Até as cretinas observações de um inglês sobre o misticismo dos “pagãos” latinos estão lá. É de rir pra não chorar. Outra coisa que dá nos nervos são as “amostras” de utilização das histórias mitológicas pelos poetas, sejam antigos ou neoclássicos. É como se o autor quisesse mostrar a mitologia antiga como algo para se conhecer por motivos sociais, e sempre estando “longe” dos antigos pagãos.

Por fim, há um pedaço muito pobre sobre outras mitologias, menos de 5% do livro. Para que fazer isso, eu não sei, já que o livro é assumidamente latino. Talvez para dizer que é sobre “mitologia geral”, mas as explicações sobre Shiva até um professor de dança indiana saberia explicar melhor. Deprimente.

O mais triste de tudo? É a editora vender o livro como um “Livro de Ouro”. Bullshitagem. Não serve nem como referência básica.

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Nobody pees on me!

Written by Volponi on 27/1/2003 – 16:54 -

Quarta dimensão. Seres vibrando em outra energia. Incas e astecas que não morreram: estão num outro plano. Legal, legal. Física teórica eu engulo. Metafísica é um porre.

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O Universo numa Casca de Noz - Stephen Hawking

Written by Volponi on 21/1/2003 – 11:29 -

O autor de Uma Breve História do Tempo ataca outra vez. Stephen Hawking é conhecido por ocupar a cátedra que pertenceu a Newton, em Cambridge. E, como um dos mais importantes físicos teóricos vivos, tenta mais uma vez explicar para o público leigo (ou seja, eu) os avanços da sua área.

Confesso que li este livro meio apressadamente, da primeira vez. Fui fazer uma releitura ‘por cima’ para escrever esta resenha, e acabei lendo o livro todo. O tema me fascina. Nos dois primeiros capítulos, Hawking tenta dar uma base sobre os fundamentos da física clássica, ou seja, Newton mais a teoria da relatividade restrita e geral, do Einstein, mais alguns postulados sobre o espaço-tempo. Parece papo de maluco, mas o texto flui bem, e os conceitos não são absurdos. A única coisa que me parece dogma, não entra direito na minha cabeça é como a luz pode ter sempre a mesma velocidade, independentemente da velocidade do observador. Não faz sentido.

Daí pra frente, poucas coisas fazem sentido. De Einstein pra cá, a física téorica parece intragável para nós, que sentimos o mundo tão newtonianamente. Quero dizer que é fácil imaginar que matéria atrai matéria, que os corpos celestes gravitam em torno de massas maiores, que a maçã cai por causa da gravidade. Mas, depois do Einstein, o espaço-tempo pode ser curvado! Como assim, curvo? Como assim, o tempo não é infinito no passado e nem infinito no futuro?

As coisas vão complicando, e os conceitos idem. Certas assertivas do autor acabem sendo não mais do que dogmas, para leigos. Afinal, é meio complicado entender que o universo tem umas 10 ou 11 dimensões, e não só 4. E que essas ‘dimensões extras’ seriam ‘enroladas bem pequenas’. Enfim.

Apesar de toda essa dificuldade de conceitos aparentemente absurdos, o autor se esforça para colocar tudo de forma simples e linear. E, algumas vezes, até metido a engraçadinho. Não sei se isso é bom, porque o resultado é freqüentemente apressado e a risada, forçada. De certa forma, isso foi premeditado. O livro que tem na contracapa um aviso que mais parece uma ameaça: ‘totalmente colorido, com mais de 200 magníficas ilustrações’. Realmente, muitas dessas ilustrações são imprescindíveis. Já outras são meramente, ahnn…, ilustrativas, para não deixar a página somente com texto. Mau, muito mau.

A sensação final é boa, por causa das discussões sobre viagens no tempo, formação do universo e buracos-negros. Mas traz muitos pontos de interrogação na cabeça. Afinal, que raios é uma p-brana?

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Duas Tardes - João Anzanello Carrascoza

Written by Volponi on 15/12/2002 – 15:12 -

Lirismo. Se há uma palavra que pode definir este livro do Carrascoza, é ela. A epifania é a chave dos 10 contos que compõem a obra.

Logo no primeiro texto, “O Menino e o Pião”, aparece um dos temas mais caros ao autor: a relação pai-filho. O menino à espera de seu pai, de seu ídolo, de seu ponto de apoio no mundo. A mesma relação vai se encontrar no último conto, “Preto-e-Branco”, só que desta vez com o avô, e também, de forma menos explícita, em “Traavessia”, “No Morro” e “Cálice”.

Carrascoza consegue encontrar relações visuais únicas nas descrições de ambientes, sentimentos e personagens. Mas, nesses contos, por várias vezes o autor-menino deixa-se levar pelo excesso de lirismo. E é tênue e tensa a linha que separa o lírico do piegas.

Recheando a obra, há vários textos excelentes e de sensibilidade aguda. O conto que dá título ao livro, por exemplo, coloca dois irmãos, frente a frente, após anos sem se ver. Duas histórias começam aí: a atual e a da infância, quando os dois irmãos ainda viviam com os pais. O entrelaçamento das duas narrativas, feitas de forma engenhosa, levam ao desfecho que explica o porquê desse encontro. A técnica lembra “Todos os Fogos o Fogo”, do Cortázar.

Outro conto que vale a pena ser degustado é “Um instrumento”. Um velho consertador de instrumentos musicais dá uma entrevista a uma repórter. A vida do velho se confunde com a de seus consertos, que se transformam nos concertos da sua filosofia.

Um livro para ser lido de peito aberto, fechando os olhos para um ou outro exagero. O resto é o belo, destilado.

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Escola de Mulheres - Moliére

Written by Volponi on 4/2/2002 – 9:49 -

Divertidíssimo. Uma peça de 1800 e lá vai bolinha, mas super-atual. Li a tradução do Millôr, sempre um primor (nossa, que rima ridícula, desculpa). Atenção, senhores, o tema é….. (tchan tchan tchan tchannnnnn….) chifres! Sim, chifres, corneadas, traição. Na verdade, é a preocupação de um grande corneador (digamos, um Ricardão) que quer se casar, mas que para não ser corneado usa do artifício mais absurdo possível: criou a mulher mais inocente do mundo. Jogou uma menina órfã nas mãos de freiras e queria que ela se tornasse a criatura mais pura possível, para assim mantê-la longe dos “perigos” da sociedade, e não ser corneado. Essa balela.

É incrível o rol de conceitos machistas do protagonista e a voz do bom-senso de seu melhor amigo, que contrastam firmemente. É engraçadíssimo ver tudo o que o Ricardão faz para que não seja corneado, achando que, somente escondendo a mulher numa redoma de ignorância é que ele conseguirá manter a sua cabeça sem adornos. É óbvio que é inútil. Mas não vou contar a história, é curtinha e põe muitos pontos de interrogação sobre a relação homem/mulher. Lembrei-me muito de um amigo. O pior é que, se ele lesse o livro, tiraria como conclusão “é mesmo, mulher é sempre traiçoeira, a gente tem que cuidar com rédea curta”. Exatamente como o malfadado personagem do Molière.

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