Cultura da Convergência – Henry Jenkins

Written by Volponi on 28/12/2008 – 14:02 -

Cultura da ConvergênciaApesar de estampar um iPhone imenso cercado de mini-telas, não se iluda pela capa. E essa é a primeira surpresa do livro. Ele não fala de convergência tecnológica, digital, ou do “equipamento-tudo-em-um” que dominará a mídia do futuro. O livro fala de mudanças culturais, principalmente na relações de consumo, produção e apropriação de mídia. Henry Jenkins prefere discutir essa mudança a partir de exemplos concretos, mostrando o que já é realidade nessa nova relação cultural: interação, transmídia e reapropriação.

Cultura da Convergência começa falando da interação entre fãs do programa de TV Survivor, que se aglutinaram para descobrir, antes dos episódios irem ao ar, quais seriam os desfechos do reality-show (spoilers). A comunidade de spoilers era um grande gerador de conhecimento sobre o programa, e ameaçou seriamente os segredos de Survivor a cada temporada. É a emergência de um tipo de inteligência coletiva, com objetivos claros e descentralizada.

Quando aborda American Idol, Jenkins mostra que a indústria de mídia hoje não possui mais um público homogêneo (se é que algum dia teve), e que ela deve lidar com diferentes tipos de consumidores: os zappers, os casuais, os leais. E mostra como os consumidores leais estão influenciando a tomada de decisão por parte das emissoras de TV. As “lovemarks” são uma realidade de mudança cultural.

O outro indício dessa mudança cultural são as criações transmidiáticas: um novo modelo de produção de bens culturais que não se limita a um único suporte, uma única história. Na verdade, o desafio é construir um universo ficcional que permita a dispersão dos conteúdos e do consumo, em qualquer ponto de contato disponível. E o melhor exemplo foi Matrix, muito além de uma trilogia cinematográfica. Os websodes ajudaram a criar a mística e dar pistas de como era o universo Matrix; os jogos construíram histórias paralelas que desembocaram nos filmes e explicaram decisões de personagens; as animações “Animatrix” contaram a história da guerra entre humanos e robôs e expandiram criativamente as implicações de um mundo dominado pelas máquinas. Mais do que criar um filme, os irmãos Wachowski criaram um universo em que outros autores (cineastas, animadores, game-makers) puderam contribuir. Só se pode adentrar realmente a Matrix consumindo muito mais que os filmes: é necessário absorver a transmídia.

Esse tipo de universo ficcional tem, nos dias atuais, um valor parecido com o universo mitológico para os antigos: servem de base comum para as pessoas possam se relacionar, se comprender, se questionar perante os demais. Os gregos tinham seus deuses e semi-deuses; nós temos Matrix, Harry Potter, Star Wars. Se essa base comum provinha de tradições orais e religiosas, hoje está nas mãos de criadores e dos grandes produtores de mídia. Será mesmo? Jenkins mostra que, apesar das pessoas não conseguirem prescindir dos universos comuns criados “artificialmente” pela indústria cultural, as empresas não têm controle total sobre eles: a ficção é absorvida e recriada pela sociedade.

Darth Vader

O exemplo, no caso, é do universo Star Wars.  Ao longo da história, a Lucas Films já teve todo tipo de relação com os fãs que usavam seu universo ficcional, indo da restrição total à permissão absoluta. No final, conseguiu perceber que há uma linha fugidia que separa proteção de direitos autorais e o re-uso legítimo do universo para recriação (o que motiva os fãs mais leais). Na prática, este é (mais) um dos desafios dessa nova realidade: encontrar o ponto ótimo onde os interesses de negócio se cruzam com os anseios dos fãs/consumidores. Não é a cultura popular dando espaço para a cultura de massa que dá espaço para cultura de convergência: é justamente a concomitância dessas três realidades que vamos ter que reaprender a lidar nos tempos atuais.

Esses universos ficcionais re-apropriados pela sociedade, e as novas relações de consumo/produção de mídia podem causar alterações também em outros aspectos de nossa cultura: na educação, na religião e na política, por exemplo. Jenkins usa o exemplo dos livros de Harry Potter para mostrar como as crianças estão recriando seus dilemas pessoais usando o universo de Hogwarts e, assim, desenvolvendo seu letramento (literacy), sob críticas positivas e negativas de pais e educadores. E mostra também a reação de comunidades cristãs que crêem que os livros representam a difusão não-desejada de um paganismo pós-moderno.

Já na política, cidadãos inconformados que fazem a alteração/criação de imagens no Photoshop, e outros que disseminam essas imagens em redes de emails é só a ponta do iceberg de um novo tipo de ativismo político. Como a abertura e a disponibilidade de informação oficial/governamental é cada vez maior, também passa a ser valorizado o papel do “cidadão monitor”, já que a imprensa, sozinha, não consegue mais acompanhar todos os aspectos da administração pública e os detalhes do debate político. Jenkins escreveu este livro pouco após as eleições presidenciais americanas de 2004, e os exemplos da campanha de Howard Dean são só uma pálida sombra do que vimos com Obama em 2008. Vimos diante de nossos olhos a maior campanha transmidiática participativa e colaborativa da história. E o papel de cidadão participante, mesmo que a distância e digitalmente, está mais próximo e real. Basta ver as manifestações políticas no YouTube, as recriações hilárias de discursos de campanha, a disseminação de fatos e boatos por email, a utilização de SMS para divulgação de informações em primeira mão e organização de eventos, e o site de transição change.gov do presidente eleito.

Por fim, este livro fornece bons insights e o conceito poderoso de que a cultura está em mudança. Indo do macro para o micro, a indústria de mídia, as empresas e os governos já estão tendo que pensar além dos produtos convencionais, abraçando o transmidiático; e convivendo com um consumidor mais participante, que pode gerar inteligência coletiva, que luta pelas lovemarks, e que quer se reapropriar e recriar o que consome. Do micro para o macro, as ferramentas digitais e o consumo de mídia mais participativo geram mudança nas relações entre as pessoas, na dissolvição da separação entre o privado/comercial e público/amador, e em uma realidade em que fazer mídia é tão natural quanto consumí-la.

E o mais interessante disso tudo é perceber esta transformação por dentro, também produzindo e disseminando a mudança.

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Folha.com.br e um “estranho jornalismo”

Written by Volponi on 29/8/2008 – 13:15 -

A Folha.com.br tomou uma atitude muito estranha para “relatar” em linguagem cifrada o vencedor da licitação de novas linhas do Metrô. Como leitor, não achei isso nem um pouco saudável. Para entender:

O governo de SP está finalizando a licitação de uma nova linha de Metrô, cujo resultado foi publicado em 28/ago/2008. Segundo a Folha, oito horas antes eles publicaram um texto um tanto estranho (fora de contexto, com adjetivos e histórias um pouco sem pé nem cabeça) sobre uma ópera em cartaz em São Paulo. E, segundo o site, esse texto era uma mensagem cifrada para identificar o vencedor da licitação, antes mesmo da abertura do resultado final.

Ah, o texto estava cifrado né?

Folha Online antecipa vitória em licitação de obra do metrô de São Paulo

Reflexões de um leitor:

1) Se a Folha possuía alguma informação confiável e verificada sobre a licitação, deveria publicá-la? Por se tratar de assunto de interesse público (divulgação de resultado de licitação previamente é proibido por lei), então é legítimo que se publique. Mas…

2) … se a fonte não era confiável o bastante para fazer uma matéria “de verdade”, não cabe publicar nada. Certo?

3) Publicar uma notícia falsa sem pé nem cabeça com texto cifrado é mesma coisa que nada. Nem pra provar que o jornalista tinha informação privilegiada (mesmo que não confirmada) isso serve. Afinal, o que impede o site publicar “n” matérias com textos cifrados, um para cada potencial vencedor da licitação?

4) Texto cifrado em jornal? É brincadeira, não?

No final, a impressão que dá é que a Folha cometeu um equívoco muito, muito grande. E estampa isso na capa do portal, orgulhosa que está da bobagem que fez.

Estampam a bobagem na capa.

Espero que este “furo” de reportagem seja bem acompanhado pelo Ombudsman, e que gere bastante discussão. Porque é lamentável.

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Participe: não acredito que você não leu (viu, ouviu, visitou…)

Written by Volponi on 19/8/2008 – 23:10 -

Uma das coisas que voltou a fazer parte da minha vida é a leitura constante. Sempre gostei muito de ler, e, na verdade, nunca parei de ler. Mas por uns 2 anos (desde que abri meu negócio próprio) fiquei sem ler livros como sempre fiz: um atrás do outro, lendo praticamente todos os dias. E, pra minha alegria, estou conseguindo trazer este hábito de volta no meu dia-a-dia.

Só que, nessa “retomada”, descobri que tanto me faltava referência sobre coisas novas e bacanas sendo lançadas por aí como me faltava também saber direito o que eu procuraria pra ler. Era como se meus interesses tradicionais tivessem se resetado, e os objetivos de leitura antigos não valessem mais. Era necessária uma nova estratégia.

E a estratégia é simples. Virar pra algum amigo e perguntar sem dó: “Qual livro você me recomenda, aquele que você diria: não acredito que você não leu”.

Tive recomendações ótimas até agora. Só que isso não precisa ficar restrito ao universo dos livros, precisa? Também existem aqueles discos, filmes, exposições, viagens, etc que valem a pena.

Quero trocar essas recomendações com vocês, meus quatro três leitores. Regras simples: um item por categoria. Ponto. E nem precisa ser “o que você gosta mais”. Tem coisas que a gente nem gosta tanto, mas que são importantes, relevantes, instigantes, que interferem na sua vida. É isso que se quer.

Então, começo eu.

Não acredito que você não leu:
- Sagarana, de Guimarães Rosa

Não acredito que você não ouviu:
- Timeout, do Dave Brubeck Quartet

Não acredito que você não viu:
- O Escorpião de Jade, do Woody Allen

Não acredito que você não visitou:
- O Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo

Não acredito que você não acessou:
- Lifehacker, tips and downloads for getting things done (em inglês)

E aí? O que você não acredita que alguém não tenha tido contato? Compartilhe aqui nos comentários.

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Prêmio Multishow de Música Brasileira

Written by Volponi on 20/6/2008 – 16:17 -

Trabalho que deu gosto de fazer aqui na 10′minutos. Preparamos mais de 35 widgets como este abaixo, para que as pessoas pudessem votar nos seus artistas preferidos para vencer o Prêmio Multishow.

E, pra mim, é Vanessa da Mata na cabeça. :-)

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Maria Rita: isso sim que é show

Written by Volponi on 24/4/2006 – 11:29 -

Esses dias ouvi uma música da Maria Rita no rádio. Era “Minha Alma”, gravada pel’O Rappa, do segundo disco da mulher. Não ouvi (ainda) esse disco dela, mas vi shows dos dois discos. Dois show muito bons.

Dizem que a voz da Maria Rita parece com a da mãe. Outro dizem que não, isso é um sacrilégio. Acho que a Elis tinha uma voz mais “pontiaguda”, mais estridente, e também mais brilhante. A filha é bem mais “redonda”, macia, bem suave. E é também muito suave nas suas apresentações. É isso que me chamou a atenção, comparando os dois shows.

No primeiro, era seu disco de estréia, e estávamos bem próximo do palco. Maria Rita ainda estava grávida, um barrigão enorme de uns 7 meses. Ela parecia bem nervosa, mas cantou de maneira linda. Em todas as pausas, contava alguma história sobre a música, e sempre, sempre, elogiava o compositor e explicava o porquê de ter escolhido aquela canção para o disco. Mas faltava energia, ela parecia cansada. Estava, de certa forma, incomodada com o palco.

Isso absolutamente desapareceu no segundo show que vi, quase 2 anos depois do primeiro. Maria Rita estava leve, divertida, cheia de energia para se mexer no palco, dançar. Talvez por conta do perfil das músicas do segundo disco (mais intensas em energia), talvez por conta da familiaridade com o palco, não sei. Mas ela estava à vontade, aquele parecia ser o seu domínio. E ela conseguiu transmitir força, graça, sinceridade, empatia mesmo em um show num clube do interior de São Paulo, com pouco mais de 300 pessoas. E o melhor: aquela delicadeza com o público, o respeito pelos músicos e compositores ao seu lado, continuava igual. Isso sim que é show.

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Diga NÃO à Marisa Monte (e à proteção contra cópia)

Written by Volponi on 5/4/2006 – 23:25 -

Os dois discos novos da Marisa Monte saíram de fábrica com proteção contra “transformação em mp3″. Ou seja: não dá para copiar as músicas para seu computador. Nem dá para você copiar para seu iPod para ouvir.

Que as gravadoras estão vendo que estão perdendo terreno com pirataria, com a livre (mas, por enquanto, ilegal) distribuição de mp3 pelos softwares P2P da vida, é compreensível. Mas criar um CD que não é CD e que instala coisas no seu computador assim que se insere no drive, aí complica.

Esse tipo de software faz o que se chama Extended Copy Protection. Em novembro de 2005, descobriu-se que a Sony BMG (nos Estados Unidos) usou um software desse tipo para bloquear as cópias de diversos CDs. Só que deu um chabu danado. O tal do software era tão perigoso que se instalava sem avisar, e abria falhas de segurança tão absurdas que ninguém acreditou quando foram descobertas. Chegava a ser um rootkit. A história foi longe (mesmo), e a Sony foi obrigada pela opinião pública a remover esse software dos seus discos, e fez um recall para todos os compradores dos discos afetados. É ou não é complicado?

Provavelmente esse problema todo não deve acontecer com a EMI no Brasil, que colocou suas asinhas de fora nestes lançamentos da tribalista. Mesmo assim, é bom ficar de olho. Se cada CD comprado instalar um software assim que for inserido no seu micro, a-de-us segurança. E cá entre nós: não adianta muita coisa, versões em mp3 dos discos da Marisa já devem estar aos montes (desculpe, não pude evitar) por aí.

Por isso, sugiro: entre no movimento “Diga NÃO à Marisa Monte“. Sem piadinhas, please. :-p

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Quipus: nós de linguagem

Written by Volponi on 19/3/2006 – 20:45 -

Uma das coisas que mais me chamou a atenção na viagem pro Chile, em janeiro, foi uma coisa que vi no Museo de Arte Pre-Colombino. Trata-se do Quipu.

O quipu é um instrumento para registro de informação que consiste, simplesmente, de diferentes tipos de nós em cordas comuns. Os quipus eram produzidos por oficiais incas altamente especializados (funcionários do império, claro), e podiam conter desde os impostos pagos por cada região (com cada sub-corda servindo de registro temporal para cada pagador) até poemas e histórias (utilizando um sistema mnemônico).

É impressionante. Não dá pra entender o que a coisa é, na verdade, sem ver do que se trata. Cada corda tem milhares de nós, com cores diferentes, e era tão extenso que, aberto, ocupa o chão todo de uma sala. Só que é leve (são só cordas), e “adicionar informação” não deve ser difícil, pra uma pessoa andando e contando coisas. Imagine um inca com uma bolsa de onde sai uma única corda, e ele vai criando diferentes nós para cada informação. Imagine também que esse quipu pode ser transportado facilmente, e com informações relevantes para serem centralizadas na capital.

Fiquei meia hora sentado em frente ao painel com o tal quipu, imaginando tudo isso e admirando a engenhosidade de um povo que foi, antes de desaparecer misteriosamente, um dos maiores impérios do mundo. língua, história, chile, santiago

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De volta para o Seinfeld

Written by Volponi on 3/1/2006 – 9:28 -

Será que o Doc Brown (o cientista maluco do De Volta para o Futuro) é o irmão mais velho (ou tio) do Kramer, do Seinfeld?

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Surfin’ Safari

Written by Volponi on 5/3/2005 – 16:58 -

Você já viu aqueles vídeos de surfe? Ondas gigantescas, tubos d’água que engolem o surfista, gente capotando, etc? Eu tenho uma teoria: todos esses vídeos foram gravados na mesma semana, nos idos da década de 80, e os produtores vendem esse banco de imagens pra qualquer um. E só. Nunca mais foi preciso gravar esses caras de novo.

Afinal, todos esses os vídeos são iguais. Não são?

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Os manos e a irmandade

Written by Volponi on 29/9/2004 – 17:05 -

Acabo de ler um paper interessante de Maria Rita Kehl, chamado As Fratias Órfãs. O tema é a cultura do Rap em São Paulo, mais especificamente sobre os Racionais MC’s. Ela tece uma análise (pessoal, mas muito abalizada) a respeito da influência, dos porquês e dos significados desse movimento na periferia. Sem mitificação da pobreza, sem posturas eu/eles, sem meias-palavras.

É um trabalho longo, para ser impresso e lido com calma. Mas que joga algumas luzes na postura (e na “atitude”) dessas pessoas, que lutam para afirmar seu valor coletivamente em uma sociedade individualista e geradora de exclusão, da qual são vítimas diretas.

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