Declaração

Written by Volponi on 11/7/2003 – 11:55 -

- Me dá Amor?

Era a última coisa que esperaria ouvir daquela mocinha. O caixa tentou disfarçar, mas enrubesceu. Pensou que poderia amá-la, sim. Agora e para sempre. Ela desviou o olhar. Imaginou que o amor merecesse uma entrada mais pomposa, com trombetas e guirlandas. Mesmo assim, ela percebeu que não era mais uma menininha. E que suas atitudes tinham um novo poder.

- Trin… Trinta centavos, disse o caixa.

Ela pegou a paçoca e se foi, mais mulher do que nunca.

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O que vem antes do que vem depois

Written by Volponi on 8/7/2003 – 12:17 -

“Agora só tem dois. O branco e o verdinho. Qual você quer primeiro?” Escolher primeiro o verde significava deixar o melhor dulçor para depois. Decidir pelo branco era gozar logo os prazeres do agora, sem se preocupar com o amanhã. Era uma armadilha. E ele não sabia o que escolher, morrendo de inveja de quem tem certezas inabaláveis sobre a ditadura do prazer.

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Sonhei que voava

Written by Volponi on 1/7/2003 – 19:07 -

Sonhei que voava. Um sonho repetido, um desejo recorrente, algo que nunca tinha percebido. Eu sei voar. Não como um pássaro, não como um super-homem. Apenas e tão-somente voava. Um sonho inteiro vendo coisas por cima. A rua da casa de meus avós, fios (cuidado!), árvores no quintal. E, claro, pessoas me olhando, espantadas.

Mas mais espantado estava eu: era muito fácil voar. Simples. Como nunca ninguém tinha voado sozinho antes? Basta esticar as palmas das mãos como se se quisesse aparar o vento, jogando-o para baixo delicadamente. Nada de bater os braços, dar impulso com os joelhos, não não. Palmas em diagonal ao chão, e pronto. A mão esquerda um pouco mais pra lá e a curva se faz. E com as mãos mais juntas ao corpo a descida é confortável.

No começo, voar dá medo. É estranho ver que é suficiente o desejo de voar. Meu pesado corpo mais-leve-que-o-ar? Como se sustenta? E na hora de descer? E se eu me machucar? E a dor? Percebi que essas inseguranças são incompatíveis com o vôo. Não se pode voar pensando nisso. Não pense. Voe.

Voar serenamente, silenciosamente. Ver de longe as pessoas indo pra lá e para cá, observar o fluxo dos carros, conhecer os tetos das casas. Brinquedos esquecidos no fundo de uma piscina. Lá na frente, um parque de diversões com uma roda-gigante. Será possível ir tão alto? Sim, é possível, mas não é necessário. Não é necessário quebrar nenhum recorde de velocidade, altura, tempo. Só voar.

Acordei. Mas a sensação veio comigo: era preciso voar. Era preciso ser livre. E, com a consciência de um ser flutuante, serenar a liberdade. Continuar voando, mesmo de olhos abertos.

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Ligação importante

Written by Volponi on 1/7/2003 – 12:18 -

A sua ligação é muito importante para nós. Você será atendido em 51 minutos pelas nossas assistentes. Por favor, aguarde. Obrigado por confiar em nossos serviços. Com mais de 43 anos de experiência, a Ortoemergência está de prontidão 24 horas por dia, com os mais modernos sistemas de atendimento. Sua saúde está assegurada com uma rede de profissionais especializados, incluindo ortopedistas, clínicos e fisioterapeutas. A sua ligação é muito importante para nós. Você será atendido em 49 minutos pelas nossas…

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Moura Brasil

Written by Volponi on 12/6/2003 – 10:50 -

Cloridrato de nafazolina
simpaticomimética sintética
de núcleo imidazol.

Potente
vasoconstritor periférico,
de ações adrenérgicas
e colinérgicas.

Antisséptico adstringente,
solução irrigante
contra corpos estranhos.

De 1 a 2 gotas em cada olho,
De 3 a 4 vezes ao dia.

(Em caso de reação adversa interrompa o uso imediatamente)

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Vendedor de bilhetes

Written by Volponi on 6/6/2003 – 16:24 -

Bom dia! Bom dia.
Bom dia! Bom di… bom dia!
Bom diiiia! Dia…
Bom dia! Bom dia.
Bom dia! B….
Bom dia. Bom dia.
Bom dia? Não, obrigado.
Bom dia! Oi.
Quer um bilhete? Não.

Bom dia! Bom dia.
Bom dia. B…

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Uvas salgadas

Written by Volponi on 25/5/2003 – 12:57 -

Nunca tinha visto aquilo. Pegou seu prato de sopa e jogou uma colher de uva-passa por cima. Quando voltou para a mesa, ele olhava fixamente uma mulher no balcão. “Canalha”, pensou, enquanto tomava a sopa. Silenciosamente, degustou cada porção daquela visão amarga. Lembrou-se das brigas, do jeito bruto, do diálogo parco e entrecortado. Queimou a língua, balbuciou uma maledicência. Foi quando ele se virou novamente. “O casaco da moça me lembrou aquele seu, esquecido no meu carro. Nosso primeiro encontro, lembra?”. Sim, sim. Ela se lembrava de cada detalhe. Nunca haveria de esquecer.

Na última colherada, afinal, o dulçor das uvas surpreendeu-a com um sorriso.

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Um casal

Written by Volponi on 19/5/2003 – 11:58 -

Árvores. Vento úmido. Escadas de terra. “E assim adormece esse homem que nunca precisa dormir pra sonhar”. A canção reverbera na mata, cada folha ecoa a melodia. Ela encontra o seu companheiro, o silêncio. E, juntos, preenchem todos os espaços.

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Hotel Cambridge

Written by Volponi on 16/5/2003 – 9:58 -

Dos anos 50, vermelhos os bancos, as paredes, as luzes do banheiro e as tubulações. Espelhos e dourados.
Dos anos 70, a dançante música, o samba-rock, o oye-como-va, os garçons servindo fantasias imaginárias.
Dos anos 2000, todos. Respirando a nostalgia de um tempo que nunca viveram.

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Dissídio coletivo

Written by Volponi on 24/4/2003 – 10:06 -

- Queremos melhores salários!
- Desculpe, senhor, qual o nome?
- Sindicato dos Operadores de Telemarketing.
- Não consta do nosso cadastro.
- Como não? Eu sou do Sindicato!
- Sindicado… sindico… não, não temos nenhum nome cadastrado com “sindicaco”.
- Não é sindicaco, é “Sindicato”.
- Quer efetuar um cadastro?
- Não! Quero melhores salários! Redução de jornada! Reposição integral da inflação!
- Reclamação anotada, sr. Por favor, anote o número do processo: 68413571. Bom dia.

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