Archive for the ‘Mini-textos’ Category
No chão
Written by Volponi on 17/4/2003 – 10:24 -A malabarista dominava as bolas e a vida. Três, quatro, seis. Não importava quantas, ela sempre com o controle. Jogando para cima e para baixo, com movimentos rápidos. Impressionava quem olhava pela precisão. Nunca deixava a bola cair. Mas, para ela, as mãos eram mecânicas, automáticas. Nem olhava para as cores. Um dia, ouviu um “te adoro” inesperadamente sincero. E deixou a bola azul ir pra debaixo do sofá.
Posted in Crônicas, Mini-textos | 5 Comments »Straussiana
Written by Volponi on 2/4/2003 – 14:07 -(pra cantar no ritmo)
Danúbio Azul, azul, azul
Danúbio Azul, azul, azul
Danúbio Azul, azul, azul
Danúbio Azul, azul, azul
Danúbio Azul…
Danúbio Azul…
Danúbio Azul…
É azul…
Essa &@#$(*& é azul!
Posted in Mini-textos, Ô luta | No Comments »Jantar
Written by Volponi on 1/4/2003 – 14:07 -Uma noite com fome. 30 minutos para cozinhar. Mais 30 para desfiar a carne-seca. Salsa, alho, pimenta. Tomate. Requentar outros sabores. Fui dormir com as mãos cheirando a cebola e a cabeça numa poesia triste.
Posted in Direto do forno, Experimentos, Mini-textos, Nham! | 1 Comment »OutroDito 2
Written by Volponi on 14/3/2003 – 17:55 -Os penúltimos serão os segundos.
Posted in Filosofadas, Mini-textos | 1 Comment »OutroDito 1
Written by Volponi on 14/3/2003 – 17:53 -Pra quê a autocrítica, se existe a crítica?
(Ou: para quê ficar procurando os seus erros, se você pode jogar a culpa em alguém?)
Posted in Filosofadas, Mini-textos | 1 Comment »Autoridade (cena soteropolitana)
Written by Volponi on 14/3/2003 – 11:42 -Cleidson foi empurrado para o centro do tumulto e levou uma porrada de cacetete. Olhou para a parte dolorida, um vergão no antebraço. Ficaria 6 dias sem poder trabalhar na refinaria, licença médica. Sem remuneração.
O velho policial coçou o bigode para desviar do olhar dos transeuntes.
Posted in Direto do forno, Experimentos, Mini-textos | 2 Comments »Ocupação
Written by Volponi on 3/2/2003 – 11:31 -Desligou a tevê de repente. Foi até o quarto, abriu todas as portas do armário. Camisas, meias, roupa suja, sapatos, documentos, travesseiro. Amontoou tudo no meio da sala. Pegou uns desodorantes no banheiro. Iriam ajudar. Por cima, jogou talheres, pacotes de macarrão pela metade, garrafas de Merlot que nunca foram abertas. Da cozinha, trouxe também uma caixa de fósforos. Acendeu o palito com a mão direita, com a esquerda fez uma concha. Jogou na pilha, mas a chama se extinguiu. Olhou para a sala bagunçada, o seu dia-a-dia todo empilhado. E começou a arrumar, coisa por coisa, tudo o que estava ali.
Finalmente, tinha encontrado o que fazer no domingo.
Posted in Direto do forno, Experimentos, Filosofadas, Mini-textos | 4 Comments »Sem sinal
Written by Volponi on 28/1/2003 – 14:00 -Ligava ou não ligava? Ela tinha dito que ligasse, mas, se o fizesse, poderia dar a entender que estava a fim demais. Se não ligasse, não teria muita chance de continuar com o relacionamento, mas estaria numa posição confortável. Confortável? Se sentiu um cretino por pensar nisso. Mas era o que estava pensando, não podia negar. Um cretino? Queria ou não queria? Suas certezas nunca foram tão fluidas. Os pilares de sua moral tinham dado espaço a pensamentos medíocres? Sim, sim? Quem ele era, afinal?
Olhou para o celular: Procurando…
Posted in Direto do forno, Experimentos, Mini-textos | 5 Comments »Preso
Written by Volponi on 27/1/2003 – 16:59 -Fechou as mãos em concha, ligeiro. Conseguira! Ela estava lá, sentia as cócegas. O menino correu pela casa, cuidadoso com o seu prêmio. Achou um pote de vidro aberto no quintal. Pensou que agora poderia cuidar do seu mosquitinho como um troféu: olhar para ele o dia todo, zumzum bonito. Um bichinho só seu. Na segunda-feira, mostraria para seus amiguinhos. Ninguém tinha conseguido capturar uma mosca. Nunca. Devagar, ele foi fechando os dedos em funil, para que ela entrasse no vidro sem escapar. Mas o que caiu foi só uma pedrinha alada, sem vida.
Choveu o final de semana todo, e o menino não pôde sair para brincar.
Posted in Direto do forno, Experimentos, Mini-textos | 4 Comments »Sorriso laranja
Written by Volponi on 24/1/2003 – 14:42 -O rapaz da sapataria sorriu para ele. “Posso ajudar?”. O garçom trouxe um cinzeiro antes de pedir. A senhora da floricultura estendeu buquês multicoloridos à sua frente. Jeferson teve a sensação de ser querido. No metrô, uma multidão amorfa acinzentava. Sentado, olhava através dos olhos das pessoas. Nada fluía. Tentou lembrar dos retratos simpáticos do dia. Mas parou quando viu um velhinho com roupas manchadas de laranja. O pintor, sujo, percebeu a observação de Jeferson, e deu de ombros, como se dissesse “é… estou todo pintado!”. Finalmente, um cúmplice no meio da multidão.
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