Archive for the ‘Mini-textos’ Category
O maracujá, as paixões e um besouro
Written by Volponi on 1/8/2003 – 14:41 -Maracujá, em várias línguas (como o inglês e o italiano) é a “fruta da paixão”. Estranho, para uma fruta que tem a fama, no Brasil, de ser considerada calmante. Paixão é fogo, e não calma. Uma explicação débil apareceu na mesa do almoço: talvez tenha esse nome por causa da planta, que enrola suas extremidades no que aparecer por perto, até outras plantas. Foi a única metáfora encontrável: o maracujá, assim como os apaixonados, se entrelaçam de tal forma ao ser desejado que fica quase impossível distinguir onde começa um e onde termina o outro. Constatação interessante: o maracujá não é daninho, isto é, ele não suga a seiva da outra planta, apenas a usa como apoio, para ter segurança de si. Ou seja: a fruta da paixão embute, nessa metáfora, uma das vertentes do amor.
O amor, que pouco se parece com aquele bezourão helicóptero, assim chamado por causa do tamanho e do barulho que provoca. O besouro nada tem a ver com a história, a não ser o fato de ser assíduo habitante dos pés de maracujá. Mas que está sempre lá, está.
Posted in Filosofadas, Mini-textos, Vida ao vivo | No Comments »Solene
Written by Volponi on 30/7/2003 – 10:32 -Pega. Quatro para cada lado. Passa, passa. A bola surrada viajava por todos os lados da rua. Aqui, vem! O jogo era o mundo deles. Agora. Com afinco lutavam pela partida, como se num estádio fosse, como se grandes jogadores fossem. Xi… perdeu. Mas eram apenas meninos. Agora, vai. E ficaram consternados quando viram aquele carro preto. Olha lá. Seguido num cortejo numa fila a baixa velocidade. Vixe… Silenciaram o jogo, a bola segurada firme contra um peito.
Solenes, prestaram seus 8 minutos de silêncio, como se uma grande partida fosse.
Posted in Direto do forno, Mini-textos | No Comments »Mil palavras
Written by Volponi on 24/7/2003 – 10:50 -Uma viagem esperada, conversas. Um despertar apressado, animado, divertido. Sol aberto, dia temperadamente agradável. Preparação, alongamento: subida. Seis quilômetros morro adentro, árvores, cheiro de mato, água de encosta. Braços abertos querendo voar no topo do mundo. Sua música descendo pelas ladeiras, em harmonia com a melodia do silêncio. Noite de balanço, mais música, debates acaloradamente inteligentes. Um prato exótico nos esperando no dia seguinte. Mais frio, conversas, agasalhos. No fundo, um pôr-do-sol avermelhado por entre o coqueiral. Moldura para nossos sorrisos. Os olhos naturalmente focados num ponto finito, o olhar para dentro do mundo. Lado a lado, você apoiada em mim, proximidade e confiança, dizendo o indizível num toque de ombros. Poesia.
Posted in Direto do forno, Experimentos, Mini-textos | No Comments »Politicamente correto
Written by Volponi on 16/7/2003 – 14:46 -- Não, eu não sou feio! Minha mãe me disse que eu sou esteticamente desinteressante, só isso!
Posted in Mini-textos, Ô luta | 3 Comments »Declaração
Written by Volponi on 11/7/2003 – 11:55 -- Me dá Amor?
Era a última coisa que esperaria ouvir daquela mocinha. O caixa tentou disfarçar, mas enrubesceu. Pensou que poderia amá-la, sim. Agora e para sempre. Ela desviou o olhar. Imaginou que o amor merecesse uma entrada mais pomposa, com trombetas e guirlandas. Mesmo assim, ela percebeu que não era mais uma menininha. E que suas atitudes tinham um novo poder.
- Trin… Trinta centavos, disse o caixa.
Ela pegou a paçoca e se foi, mais mulher do que nunca.
Posted in Direto do forno, Mini-textos | 2 Comments »O que vem antes do que vem depois
Written by Volponi on 8/7/2003 – 12:17 -“Agora só tem dois. O branco e o verdinho. Qual você quer primeiro?” Escolher primeiro o verde significava deixar o melhor dulçor para depois. Decidir pelo branco era gozar logo os prazeres do agora, sem se preocupar com o amanhã. Era uma armadilha. E ele não sabia o que escolher, morrendo de inveja de quem tem certezas inabaláveis sobre a ditadura do prazer.
Posted in Direto do forno, Mini-textos | 2 Comments »Vendedor de bilhetes
Written by Volponi on 6/6/2003 – 16:24 -Bom dia! Bom dia.
Bom dia! Bom di… bom dia!
Bom diiiia! Dia…
Bom dia! Bom dia.
Bom dia! B….
Bom dia. Bom dia.
Bom dia? Não, obrigado.
Bom dia! Oi.
Quer um bilhete? Não.
…
…
Bom dia! Bom dia.
Bom dia. B…
Uvas salgadas
Written by Volponi on 25/5/2003 – 12:57 -Nunca tinha visto aquilo. Pegou seu prato de sopa e jogou uma colher de uva-passa por cima. Quando voltou para a mesa, ele olhava fixamente uma mulher no balcão. “Canalha”, pensou, enquanto tomava a sopa. Silenciosamente, degustou cada porção daquela visão amarga. Lembrou-se das brigas, do jeito bruto, do diálogo parco e entrecortado. Queimou a língua, balbuciou uma maledicência. Foi quando ele se virou novamente. “O casaco da moça me lembrou aquele seu, esquecido no meu carro. Nosso primeiro encontro, lembra?”. Sim, sim. Ela se lembrava de cada detalhe. Nunca haveria de esquecer.
Na última colherada, afinal, o dulçor das uvas surpreendeu-a com um sorriso.
Posted in Crônicas, Direto do forno, Mini-textos | 3 Comments »Um casal
Written by Volponi on 19/5/2003 – 11:58 -Árvores. Vento úmido. Escadas de terra. “E assim adormece esse homem que nunca precisa dormir pra sonhar”. A canção reverbera na mata, cada folha ecoa a melodia. Ela encontra o seu companheiro, o silêncio. E, juntos, preenchem todos os espaços.
Posted in Mini-textos | 1 Comment »Dissídio coletivo
Written by Volponi on 24/4/2003 – 10:06 -- Queremos melhores salários!
- Desculpe, senhor, qual o nome?
- Sindicato dos Operadores de Telemarketing.
- Não consta do nosso cadastro.
- Como não? Eu sou do Sindicato!
- Sindicado… sindico… não, não temos nenhum nome cadastrado com “sindicaco”.
- Não é sindicaco, é “Sindicato”.
- Quer efetuar um cadastro?
- Não! Quero melhores salários! Redução de jornada! Reposição integral da inflação!
- Reclamação anotada, sr. Por favor, anote o número do processo: 68413571. Bom dia.