Archive for the ‘Experimentos’ Category
Meio-amargo
Written by Volponi on 23/1/2003 – 18:24 -Depois de anos de pedidos, Cláudio chegou em casa com rosas e bombons. Era a primeira vez, depois do casamento. Marcela olhou tudo aquilo e lembrou que os dois estavam bem. Aquilo não era uma justificativa. Não era um pedido de desculpas, muito menos uma traição. Os dois estavam tão sintonizados que ela tinha se esquecido de pedir por mimos assim. Cláudio contente. Ela percebeu que, agora, não faltava mais nada para cobrar dele. E ele nunca poderia ter imaginado que o fim chegaria desta forma. Mas pressentiu, quando ela quase chorou ao morder o chocolate meio-amargo.
Posted in Direto do forno, Experimentos, Mini-textos | 3 Comments »Sete sete sete
Written by Volponi on 23/1/2003 – 10:47 -Naquela noite de sábado, Amanda se ajoelhou no chão para pegar os cacos. Três copos (um de requeijão), um pires, dois pratos, e, agora, a saladeira. Era a sétima peça de louça que ela deixava quebrar naquela semana. Sempre depois do jantar, sempre sozinha. Enxugava a louça pensando no que tinha acontecido. Ato falho ou proposital, o ruído do vidro quebrando servia para quebrar seus pensamentos recorrentes. Mas ela tinha entregado os pontos. Chorava, fragmentada que estava. Pegou o maior caco e foi até o quarto. Desistiu de se cortar. Jogou tudo no espelho. Sete vezes sete, o seu reflexo se desfez em pedaços. O azar multiplicado muitas vezes. Mas Amanda sabia que a dor absoluta não tem medida. E sorriu.
Posted in Direto do forno, Experimentos, Mini-textos | 1 Comment »Pour Elise
Written by Volponi on 22/1/2003 – 12:29 -- Tã… nanananã-nanã-nanã…
- Ei! Vê um gás pra mim.
Todo dia a mesma ladainha. Acordar às 5, colocar o uniforme, e tocar a caminhonete pelas vielas do bairro.
- Lá vem o caminhão de gás de novo… ninguém muda essa musiquinha?
- É impossível, é irritante.
- Como o cara consegue ficar dentro do caminhão?
Mas Ludovico nem ouvia mais a canção. Só pensava em carregar o menos possível de botijões. Um dia, ele pegou sua filha pelas mãos e foi até o Ibirapuera. Caminhar, respirar ar puro, essas coisas. Uma orquestra executava peças famosas de Beethoven. Ele foi se aproximando do som. Pour Elise. No seu coração, sabia que nunca tinha ouvido coisa tão bela.
No dia seguinte, pediu demissão e foi trabalhar num supermecado.
Posted in Direto do forno, Experimentos, Mini-textos | 2 Comments »Misty
Written by Volponi on 5/1/2003 – 1:35 -A Misty é uma gata. Ela fica me observando todas as noites, pela janela do apartamento da frente. Pelo seu olhar, aposto que é manhosa, e está interessadíssima em mim. Um dia desses, tomo coragem e me apresento pra ela. Enquanto isso, ela fica só me olhando… diferente do gato preto que está no mesmo apartamento. Esse nem nome vai ter. Ao contrário da Misty.
Posted in Experimentos, PIMBA Corp, Vida ao vivo | No Comments »O da impotência, não!
Written by Volponi on 2/1/2003 – 11:27 -- Me vê um aí.
- Esse?
- É.
- Tá aqui. Dois e trinta.
- Não, me vê outro.
- Não quer esse?
- Não, o da impotência não. Tem o da criança?
- Humm… Impotência, impotência… ah! achei um mau-hálito aqui. Serve?
- Prefiro o com a criança aprendendo.
- Olha, achei um câncer também. Acho que o da criança acabou.
- Humm…
- Câncer, mau-hálito, impotência…. ?
- Tá, me vê esse câncer aí.
- Dois e trinta. Obrigado.
Convite
Written by Volponi on 29/12/2002 – 23:56 -Vamos pro lado escuro da Lua.
Vamos dar cambalhotas.
Vamos jogar a chave fora.
Vamos fazer de tudo pra não fazer nada.
Vamos sorrir para o relógio.
Vamos caminhar até a garagem.
Vamos pro lado escuro da Lua.
Vamos dar cambalhotas.
Vamos experimentar uma barata.
Vamos fingir que estamos indignados.
Vamos ficar de vigília a noite toda.
Vamos trabalhar até esfolar os dedos.
Vamos pro lado escuro da Lua.
Vamos dar cambalhotas.
Vamos estocar orgasmos.
Vamos gritar merda.
Vamos aplicar golpes imaginários.
Vamos chover.
Teoria Geral do Mictório
Written by Volponi on 18/12/2002 – 1:42 -Mictório masculino (existe feminino?) tem sua própria semiótica. Tudo é cheio de significados. Seja um banheiro B, de dimensões normais, contendo cinco mictórios nomeados de m1 a m5, conforme o gráfico.
Banheiro B -------------------------- | Q Q Q Q Q | | | | m1 m2 m3 m4 m5 | | | | | -----------------| |----
Se os sujeitos da questão-problema são heteressexuais masculinos (HM), há uma ordem correta de ‘preenchimento’ dos mictórios, justamente para não suscitar dúvidas a respeito da heteressualidade presumida. Aí, teríamos um HE (homossesual enrustido). Analisemos os casos:
Banheiro vazio - m3 não deve ser preenchido, porque dá a impressão de que o HM quase tem vontade de estar do lado de outro HM — e, como se sabe, isso é o primeiro indício de que o HM é na verdade HE. m1 e m5 tampouco devem ser preenchidos, porque denotam medo por parte do HM. HM que é HM não tem medo de outro HM, ainda mais no banheiro. Portanto, os únicos lugares possíveis são m2 OU m4. m4 leva a preferência, por estar mais próximo da porta (HM não se esconde!)
Banheiro com 1 HM - m4 já está preenchido. m1 não pode ser, por estar longe demais do outro HM (e HM não tem medo!). m5 tampouco, por ser uma escolha que denota HE. As opções são m2 e m3. Qual a melhor? Aqui todos os homens vão concordar: apesar de m2 parecer mais correto, o único lugar para que o HM continue como HM verdadeiro é m3. m2 é correto, mas só HEs são corretinhos demais. m3 denota que o HM não tem medo, e que não está nem aí se o cara do lado quiser ver o M dele. m3 é escolha de verdadeiros HM.
Banheiro com 2 HMs - fácil. m3 e m4 ocupados, a única opção é m1.
Banheiro com 3 HMs - não é tão óbvio. m2 ou m5? Com m5, teríamos uma tríade m3, m4, m5, isolando m1 no canto. Isto é ruim, é contra os princípios de igualdade entre os HM (todos são HMs e se comportam como tal, ninguém é HE). O melhor é usar m2, incluindo m1 no grupo. Afinal, isolar m1 significaria que m1 é HE, o que pode causar brigas.
Banheiro com 4 HMs - tem HM demais. Saia do banheiro. Mictório com HM demais é coisa de HE.
Posted in Direto do forno, Experimentos, Filosofadas, Tecnicismos | 3 Comments »Teoria Geral do Bife
Written by Volponi on 18/12/2002 – 1:16 -Segundo a lenda gastronômica, todo bife de primeira merece o suco que tem. Todo o sabor do bife está no seu caldo. Perdê-lo é, portanto, a maior heresia possível.
Primeiro: nunca se bate um bife de verdade. Lembre-se: ele não fez mal nenhum a você, pra quê bater nele? Só vai desidratá-lo. O mesmo vale pro tempero: não o tempere antes de jogar na frigideira/chapa, porque o sal “chupa” todo o caldo.
O correto é pegar um bom bife numa frigideira com pouca manteiga (para realçar o sabor), e não mexer nele. Quando a parte de baixo estiver selada (isto é, impermeabilizada, para não perder o suco), coloca-se o sal na parte de cima, para puxar o caldo. Aí vira-se o bife esta única e última vez, com o cuidado de dar aquela passadinha pela frigideira para puxar o suco para a carne. Aí coloca sal sobre o lado selado e espera-se a impermeabilização do outro lado. Pronto. Seu bife é o mais suculento de todos do mundo ever infinito!
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