Mundo medicalizado e excesso de pós-modernismo

Written by Volponi on 7/1/2004 – 18:34 -

Um texto de Cláudia Rodrigues para o NoMínimo (Natal da coqueteleira eletrônica) traz uma entrevista com Benilton Bezerra Jr., psicanalista da UERJ. Os temas são a vulgarização da depressão, o excesso no uso de medicamentos e de como vivemos num mundo que vende que a felicidade deveria ser absoluta, já que podemos tudo. Vou abrir algumas aspas:

Vive-se numa cultura em que a tolerância com qualquer estado de fracasso e frustração é cada vez menor. A tristeza vem sendo compreendida como desvio de performance, e por isso está virando depressão. (…)

Vivemos cada vez menos constrangidos por regras coercitivas, somos cada vez mais livres para gozar do jeito que nos parecer adequado. (…) A liberdade carrega esses dois grandes paradoxos. O primeiro é que somos obrigados a ser livres, o outro é que sabe-se muito pouco o que fazer com a liberdade. Busca-se um discurso competente porque é preciso saber o que fazer com toda essa autonomia. (…)

O sujeito atual aprendeu a retirar do passado todo o peso normativo que o passado já teve. Ninguém acha que deve quase mais nada ao passado. Somos tão livres que o passado deixou de ser um lugar de inspiração sobre como viver a vida. Com essa renegação do passado, com a colocação de todas as expectativas no futuro, deixamos de viver o momento presente. O presente virou uma espécie de obsolescência atualizada a cada minuto.

Por hora, chega, senão acabo copiando a matéria inteira, já que compartilho com quase tudo o que Benilton diz. Vejo muitas pessoas sem rumo nesse caldo pós-moderno. Não quero fazer uma crítica babaca ao mundo. Se a sociedade se apresenta com estas características e estes desafios, devemos lutar para reconhecer os problemas e encontrar soluções pessoais. O que não se deve é fechar os olhos e deixar-se perder.

A matéria vale uma lida com calma, com reflexões idem.

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7 Comments to “Mundo medicalizado e excesso de pós-modernismo”

  1. Rafaela Says:

    Mundo medicalizado mesmo…

    Você sabia que aqui nos EUA há várias propagandas sobre ADD, que supostamente é a doença da falta de atenção infantil?

    Quando eu tiver filhos, já combinei com o meu marido que não vamos cair nessa. Uma criança tem falta de atenção, provavelmente, por falta de carinho e de atenção dos próprios pais.

    Para economizar tempo, os pais pós-modernos deixam seus filhos nas mãos das babás eletrônicas e os enchem de pílulas mágicas para que eles não lhes perturbem o cotidiano apressado e ocupado.

    Falei um pouco disso no artigo “As novas esposas de Stepford” (http://cadernodourado.blog-city.com/read/416963.htm). Dá uma lidinha e vê se você concorda.

    Ah, parabéns pelas ótimas reflexões em seu blog! Continue assim.

  2. volponi Says:

    E não só isso, Rafaela. A infância, a felicidade, a sociabilização: tudo está medicalizado, cientifizado, buscando a perfeição matemática. Para mim, a ciência deveria ajudar a relativizar o mundo, e não sustentar uma simplificação emburrecedora. Será que as pessoas não enxergam? Será que não vêem que, no fundo, o ser humano é mesmo plurar, demanda cuidados, e que sofrer também faz parte da vida?

    Ah, desabafos…

  3. Anonymous Says:

    Existe alguma coisa na argumentação de Benilton Bezerra e na sua, Volponi, que está me incomodando um pouco e não sei bem por quê. Talvez seja pela simplificação da complexidade; talvez seja porque o tema está sendo tratado de forma genérica demais; talvez porque coloque no mesmo caldo de cultura viventes de 0 a 100 anos; talvez pela auseência de nuances e de contrapontos; talvez pelo estilo/ tom panfletário e apocalíptico.
    Não acho que tudo pode ser colocado em caixinhas tão previsíveis/ etiquetadas assim. O que é viver “bem” o presente? O que se entende por viver a/ em liberdade? Pode-se realmente afirmar que o homem foi ou será, um dia, genuinamente autônomo? Qual é o real significado de autonomia?
    Tempos atrás, aquele que cevava e tratava com carinho o passado era rotulado como alienado, “psicologizado”, preocupado com o próprio umbigo, pouco preocupado com causas. Como explicar a atual bandeira pelo “resgate do passado”, tendo sido ele execrado em épocas não tão remotas assim? Em que tipo de lastro se apóia hoje a psicologização do “futuro”? Quem pode afirmar/ garantir que medicamentos exterminam melancolia, tristeza, depressão ou qualquer outro nome que se queira dar a sentimentos semelhantes?

  4. Suzete Says:

    Esqueci de escrever meu nome no comentário acima.

  5. volponi Says:

    Entendo seu incômodo, Suzete. Nós sabemos que o mundo é muito mais plural que isso. Eu peguei todas as suas inquietações e testei com os substantivos “excesso de medicalização” e “esqueça o passado”. Também combina, viu? Maniqueísmos e simplificações estão por todos os lados, e isso não ajuda muito a discussão.

    Mas, pensando como um Bush, vá lá: os argumentos por trás de um Prozac me incomodam muito mais que a licença para (também) errar e ficar triste.

  6. silvia Says:

    me vejo muito bem nas palavras do Benilton, Muito pouco espaco em minha vida para , fracasso, frustaçao. Me sinto deprimida, parece um estado de ser, algo de que nao posso fugir. Nào sei mais a diferença de depressão e tristeza.

  7. ElenizeCampolina Says:

    Na verdade, estou fazendo uma pesquisa excesso de medicalização: psicofármicos, gostaria de saber onde posso encontrar textos,artigos?

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