Archive for Março, 2004
No dia em que…
Written by Volponi on 30/3/2004 – 19:30 -No dia em que ganhei o oboé,
ouvi a serenidade perfeita.
Uma nota sozinha,
límpida,
firme,
doce.
Um único sopro,
que nunca mais voltará.
No dia em que perdi a vida,
tinha dezessete anos
e a chave de um carro.
Saí do veículo capotado,
mas não consegui sentir nada.
Tinha perdido também a chance da morte.
No dia em que pousei na Lua,
encontrei uma metáfora.
Um chão desértico e claro,
um céu invisível, escuridão.
Caverna ao contrário,
aberta para o infinito
e impenetravelmente branca.
The thrill is NOT gone
Written by Volponi on 26/3/2004 – 10:52 -Esperava há 7 anos por isso. O show do B.B. King foi o máximo. Ele não é um tiozinho bacana. É um vovô figuraça. Ele teve que tocar sentado, pousando a Lucille no colo. Pra reverter o espanto, um papo simpático com a platéia. Algo como “You know, I’m an oooold man, not as young as those behind me. Knees? No good. Back? No good. Head? Noooo gooood too.” Detalhe: atrás dele, havia uns 10 músicos com cara de vovô.
O cara dominou o público, que aplaudia comovida. Algumas vezes, no meio da música, ele apontava uma “beautiful young lady” na segunda fila, e fazia umas gracinhas com o pessoal da banda. Todo mundo na gargalhada. Só que certas coisas ninguém entendia direito. B.B. “descobriu” o porquê. “Maybe they didn’t get my Mississipi accent”. Comédia.
A coisa triste é que, vendo o B.B. King se chacoalhando numa cadeira, apesar de toda a simpatia, deu pra notar que esta deve ter sido a última oportunidade de vê-lo em SP. Um vovô, não se esqueçam.
When you leave me
I try not to worry
Come back in a hurry
‘Cause I need you so
No começo, fiquei com medo. Ele só ponteava a guitarra no começo das músicas, e depois soltava seu vozerrão. Solos de piano vintage? Nãaaao! Eu queria era o rei do blues tocando. Mas esse medo durou pouco: quando o cara resolveu tocar (e não foi pouco!), quase caí da cadeira. Eu não sabia se fechava os olhos pra curtir melhor o blues ou se arregalava os olhos pra descobrir o que ele estava fazendo. Uma dúvida maravilhosa.
Ainda bem que a emoção não se foi.
Posted in No ouvido, PIMBA Corp, Vida ao vivo | 6 Comments »Camiseta de número
Written by Volponi on 19/3/2004 – 14:00 -Uma modinha que já está quase ultrapassada são as tais “camisetas de número”. Sim, você já viu muitas delas com webdesigners, patys e homos. O significado desses números nunca fez muito sentido, para mim. Coisa um tanto aleatória.
Mas, passeando no centro de SP, vi uma vitrine cheia de roupas com o número 23, seguido de uma frase embaixo: “O senhor é meu pastor…” etc.
Bom, pelo menos essa tem um sentido. Era uma loja de produtos evangélicos. ![]()
Antinotícia
Written by Volponi on 17/3/2004 – 17:30 -Jornalismo online publica qualquer coisa. Até quando é irrelevante ou sem noção.
O problema é que eu cliquei nisto. Também, quem mandou…
Cidades Invisíveis - Ítalo Calvino
Written by Volponi on 15/3/2004 – 14:06 -Uma viagem por cidades imaginárias. Uma coleção de poesias em prosa. Um diálogo fantástico entre dois grandes nomes da Idade Média. Calvino consegue fazer de tudo isso (ou por tudo isso) um livro sutil e instigante.
O argumento é bárbaro: o comerciante genovês Marco Polo encontra-se com o imperador mongol Kublai Khan, neto do grande Gengis, na capital do império, durante o século XIII. O imperador não pode sair da capital e, para satisfazer sua curiosidade, Marco Polo descreve a ele as cidades e os lugares por onde passou.
Narrações curtas, poéticas, carregadas de imaginação. E com um detalhe, todas com nomes de mulher. O livro descreve 50 delas, divididas em vários tipos: as cidades e a memória, as cidades delgadas, as cidades e as trocas, as cidades e os mortos, as cidades e o céu.
Entre essas descrições, aparecem os diálogos entre o genovês e o mongol. E estes diálogos são chaves para discussões literárias e filosóficas sobre o que é narrado e o que é apreendido; sobre a cidade para seus habitantes e para o visitante; sobre o tempo e as cidades; sobre imaginação e realidade; e muito mais.
Mas as grandes pérolas são as cidades. Calvino consegue criar descrições de cidades fantásticas, que nos colocam sempre a pensar e a imaginar nossa relação com os ambientes ao redor. Cidades que são espelhadas, metrópoles inconscientes de sua história, povoados formados apenas por tubos hidráulicos. Em cada uma, uma sugestão. Em cada uma, uma imagem. Em cada uma, uma poesia.
Calvino consegue deixar claro que, mesmo invisíveis, essas cidades coexistem na história, na memória e, principalmente, na imaginação de cada um.
Posted in PIMBA Corp, Resenhas | 2 Comments »As cidades delgadas 4
Written by Volponi on 15/3/2004 – 13:11 -Sofrônia
A cidade de Sofrônia é composta de duas meias cidades. Na primeira, encontra-se a grande montanha-russa de ladeiras vertiginosas, o carrossel de raios formados por correntes, a roda-gigante com cabinas giratórias, o globo da morte com motociclistas de cabeça para baixo, a cúpula do circo com os trapézios amarrados no meio. A segunda meia cidade é de pedra e mármore e cimento, com o banco, as fábricas, os palácios, o matadouro, a escola e todo o resto. Uma das meia cidades é fixa, a outra é provisória e, quando termina a sua temporada, é desparafusada, desmontada e levada embora, transferida para os terrenos baldios de outra meia cidade.
Assim, todos os anos chega o dia em que os pedreiros destacam os frontões de mármore, desmoronam os muros de pedra, os pilares de cimento, desmontam o ministério, o munumento, as docas, a refinaria de petróleo, o hospital, carregam os guinchos para seguir de praça em praça o itinerário de todos os anos. Permanece a meia Sofrônia dos tiros-ao-alvo e dos carrosséis, com o grito suspenso do trenzinho da montanha-russa de ponta-cabeça, e começa-se a contar quantos meses, quantos dias se deverão esperar até que a caravana retorne e a vida inteira recomece.
do livro “As Cidades Invisíveis”, de Ítalo Calvino
Posted in PIMBA Corp | 2 Comments »Gostava tanto de você
Written by Volponi on 9/3/2004 – 12:45 -Pode existir algo que une Eric Clapton a Tim Maia de uma forma inesperada. É conhecido o motivo destes versos:
Would you know my name
if I saw you in heaven?
Would it be the same
if I saw you in heaven?
(…)
Beyond the door there’s peace I’m sure,
And I know there’ll be no more
tears in heaven.
O filho de Eric Clapton morreu em 1991, e o inglês criou Tears in Heaven, uma delicada homenagem. O programa Bate o Tambor, da Rádio USP, divulgou que Tim Maia teria criado Gostava Tanto de Você para sua filha, que havia falecido. É uma interpretação válida, do começo ao fim da letra:
Nem sei porque você se foi
Quantas saudades eu senti
E de tristeza vou viver
E aquele adeus não pude dar
(…)
Eu corro, fujo dessa sombra
Em sonho vejo este passado
E na parede do meu quarto
Ainda está o seu retrato
Ou seja: é verossímil. Mas provavelmente não é verdade.
No Google, há vários blogs que repetem a mesma informação sobre Tim. Só que há um detalhe. A música é de Edson Trindade. Pode ser que Trindade tenha escrito para sua filha. Pode ser que não. Ou seja: grandes chances dessa ser mais uma das lendas que circulam pela internet, e pessoas bem-intencionadas (como o produtor do programa da rádio) ajudam a realimentar a lenda.
Posted in Cri-crítica, PIMBA Corp, Vida ao vivo | 34 Comments »Colchetes letonados
Written by Volponi on 8/3/2004 – 17:36 -Aviso
Os materiais de escritório relacionados a seguir estão disponíveis no Almoxarifado Geral e podem ser retirados mediante Requisição de Material.
- 650/6 Borracha branca para lápis
- 679/8 Caneta esferográfica cristal azul BIC
- 824/2 Colchetes Letonados nº 8
- 818/7 Grafite 0,5 mm B
É ou não é uma beleza? Agoooora sim, estou motivado pra caramba.
Posted in Webslave chronicle | No Comments »Segunda-feira…
Written by Volponi on 8/3/2004 – 14:59 -Olhem o céu lá fora. Um sol maravilhoso, colorido, vibrante. Isso sim é que é um belo presente para o Dia da Mulher: uma segunda-feira cheia de vida.
Posted in Vida ao vivo | 1 Comment »Os afro-brasileiros, os brasilo-africanos
Written by Volponi on 3/3/2004 – 11:36 -Uma das coisas que mais me impressionou nessa segunda viagem a Salvador foi a cultura negra que lá é cultivada. A gente aqui em São Paulo ouve falar, vê na TV, mas não sente que isso é dia-a-dia. Yorubá é quase uma segunda língua, com termos aparecendo em todo lugar. A escolha da Deusa Negra do carnaval, pelo Ilê-Aiyê, como bem disse a Ca, muito difere de concursos de beleza. E uma tentativa sempre constante de manter vivas as chamas d’África.
Minha surpresa foi descobrir, vendo um documentário na TV Escola ontem (coisas de quem está de férias…) que existe uma comunidade importante no Benin de negros que foram deportados do Brasil no século XIX. E, pasme: eles buscam manter as tradições brasileiras lá, com comemorações ao Senhor do Bonfim, com referências à Bahia e com sobrenomes lusitanos.
Um trechinho copiado do Ministério das Relações Exteriores sobre o Benin:
“Entre meados do século XIX e a abolição da escravidão no Brasil, numerosos escravos brasileiros retornaram ao Benin. Neste período, cumpre destacar a figura de Francisco Félix de Souza, um dos maiores traficantes de escravos e dendê da costa ocidental africana. Apelidado de “Chacha”, foi o patriarca da família “Souza” de Ouidá, a qual hoje engloba cerca de cinco mil descendentes. Após o regresso ao Benin de escravos alforriados entre 1836 e a abolição da escravidão no Brasil, surgiram “bairros brasileiros” nas cidades de Ouidá e Porto Novo. Até hoje, milhares de beninenses mantêm traços da cultura e os nomes de suas famílias brasileiras, sua devoção ao Senhor do Bonfim, a dança e a culinária da Bahia. Têm orgulho sincero em se dizer “brasileiros”.”
Existem mais informações sobre o assunto:
Cartas D’África