Divagações sobre línguas
Written by Volponi on 19/12/2003 – 11:13 -Dia desses a Camila me contou uma coisa interessante.
Textos de uma ONG da qual ela faz parte freqüentemente têm de ser traduzidos do inglês para o português, e vice-versa. Ao traduzir para o português, volta e meia se têm quase o dobro de laudas. E a americana que divulga a ONG nos EUA é obrigada quase a recriar os textos, dizendo as mesmas coisas de outro jeito. Este é um indício de que o inglês é uma língua mais eficiente que o português.
Juro que fiquei com a pulga atrás da orelha. É isso mesmo?
A iluminação me apareceu semana passada, lendo Akira (o famoso HQ da década de 90). Um dos textos explicava como foi feita a tradução do mangá para o mercado americano. Para meu espanto, muitos balões e cenas precisavam ser refeitas por causa da língua: coisas que eram ditas em 3 palavras em japonês usavam quase 15 em inglês!
Então será que, ao traduzir do japonês para o português, um artigo vire um romance? Duvido muito.
Imagino que a resposta para isso seja óbvia: cada língua é ótima (eficiente) para dizer o que se precisa, se o texto for feito com cuidado, precisão, ritmo, estilo. Na tradução, perde-se justamente o que não é informação: a concisão, a poesia, a elegante eficiência. É por isso que, ainda hoje, fico imaginando como é possível alguém traduzir Guimarães Rosa. Parece mentira.
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Dezembro 19th, 2003 at 13:40
Como se traduz a obra de William Shakespeare, mantendo a mesma qualidade que com toda sapiência você relatou ?
Dezembro 24th, 2003 at 11:02
A gente não consegue traduzir direito nem o que a gente pensa e sente na própria língua! E aposto que o que a gente entende do Guimarães ou de Shakespeare não é fiel ao que está escrito, mesmo lendo no original…
Comunicação é uma linda falsa ilusão!
Janeiro 4th, 2004 at 5:10
Traduzir é uma arte, assim como escrever. Sou jornalista e tradutora e fico realmente preocupada quando vejo esse pessoal que pensa que entende uma língua estrangeira e se aventura pelo mundo das traduções. Cinco anos de curso de idiomas só rendem um diploma, não o conhecimento profundo de uma língua — o que aliás não é alcançado por nenhum estudioso ou nativo porque um idioma é um elemento vivo que se reinventa a todo momento.
Desde uma simples letra de música a um poema e uma obra completa, um bom tradutor precisa conhecer profundamente a gramática da língua do ponto de partida e a língua da linha de chegada para se aproximar do sentido real do original. Não são somente as palavras que precisam ser traduzidas, mas sim a intenção, o sentimento, a sensação.
Você pode se perguntar que credenciais tenho eu para falar nesse assunto e a resposta é simples: meu marido só fala inglês e eu preciso, quase que 24 horas por dia, traduzir meus próprios pensamentos do português para o inglês para me fazer entender. Às vezes, penso tanto em inglês que, na hora de ensinar-lhe alguma coisa na minha própria língua mãe, o vocabulário me escapa e eu fico com cara de paisagem…
E é errado pensar que uma língua é melhor do que a outra. No fundo, cada língua é um conjunto de palavras que, juntas, fazem um sentido único. A única diferença é que alguns idiomas precisam de mais elementos para formar algo coerente.
Além disso, há o aspecto cultural do país onde tal idioma é falado. Todos sabemos que o português do Brasil e o de Portugal têm diferenças leves, assim como o inglês britânico, o norte-americano e o australiano. Nem todas as pessoas que falam espanhol entendem certas expressões regionais. Isso ocorre porque a língua é viva e muda, amadurece de acordo com o grupo que a cultiva.
Shakespeare, Guimarães Rosa e Gabriel García Marques podem ser traduzidos sim, caso o tradutor compreenda o que o autor quis dizer e ainda saiba relacionar tal conteúdo com a língua-alvo, adaptando o texto sem alterá-lo.
Resumindo, para se obter uma tradução que se aproxime do original, é preciso ler e aprender muito para, então, poder levar as palavras de outrem a um ouvido estrangeiro. E esse tipo de aprendizado é daqueles que nunca terminam…
P.S.: Se alguém tiver uma tradução perfeita para o inglês da expressão “ele não é de nada”, me avise, pois não consegui chegar tão perto quanto gostaria do significado ao tentar explicar para o meu marido a letra que a Maria Rita canta…
Julho 25th, 2004 at 16:12
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