Uvas salgadas

Written by Volponi on 25/5/2003 – 12:57 -

Nunca tinha visto aquilo. Pegou seu prato de sopa e jogou uma colher de uva-passa por cima. Quando voltou para a mesa, ele olhava fixamente uma mulher no balcão. “Canalha”, pensou, enquanto tomava a sopa. Silenciosamente, degustou cada porção daquela visão amarga. Lembrou-se das brigas, do jeito bruto, do diálogo parco e entrecortado. Queimou a língua, balbuciou uma maledicência. Foi quando ele se virou novamente. “O casaco da moça me lembrou aquele seu, esquecido no meu carro. Nosso primeiro encontro, lembra?”. Sim, sim. Ela se lembrava de cada detalhe. Nunca haveria de esquecer.

Na última colherada, afinal, o dulçor das uvas surpreendeu-a com um sorriso.

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3 Comments to “Uvas salgadas”

  1. scramim Says:

    Coisas que o texto me provocou e eu acredito que você não tinha a intenção:

    1) Um sujeito oculto na primeira e em outras frases fez com que eu tivesse que ler três vezes…
    2) Acabei não entendendo: Nunca tinha visto o quê?
    3) O longo tempo que se passou entre ela ter percebido que ele olhava a mulher do balcão e o comentário sobre a blusa, aliado à falta de outras informações sobre ele que não “o jeito bruto, o diálogo parco e entrecortado” faz com que eu ainda hesite em acreditar que o interesse era mesmo no casaco…

    Ah, DUAM, DUAM, DUAM…

  2. griegson Says:

    Finalmente compreendi o conto.
    Quando ele diz “Nunca tinha visto aquilo” refere-se a um observador vendo um homem colocando uvas na sopa de sua mulher ou seja: “Pegou seu prato de sopa e jogou uma colher de uva-passa por cima”. A frase “Quando voltou para a mesa” refere-se a companheira desse homem que havia saído e agora retornava. Ele não percebendo ela aproximar-se ficou olhando outra mulher, veja o texto: “ele olhava fixamente uma mulher no balcão”. Ao ver aquela cena, sua companheira pensou consigo: “Canalha”. E “enquanto tomava a sopa” refere-se a sopa com as uvas passas. E a frase “Silenciosamente, degustou cada porção daquela visão amarga”. É a mulher do homem que o observa olhando para outra mulher.
    Com isso ela “Lembrou-se das brigas, do jeito bruto, do diálogo parco e entrecortado” ou seja, eis a explicação pelo esfriamento de seu relacionamento e falta de diálogo.
    Nisso, no afã de seus sentimentos ela “Queimou a língua” na sopa e “balbuciou uma maledicência”. Isso despertou o homem que estava contemplando outra mulher e “Foi quando ele se virou novamente”. Ou seja, Sem graça e até mesmo sem jeito algum ele comenta com sua companheira “O casaco da moça me lembrou aquele seu, esquecido no meu carro”. Com isso ele tenta desviar a atenção e dizer que não estava olhando para aquele mulher, porém para o casaco. E para suplantar qualquer dúvida ele diz “Nosso primeiro encontro, lembra?”. E confirmando o êxito de seu intento, a mulher responde “Sim, sim”.
    E agora a frase “Ela se lembrava de cada detalhe. Nunca haveria de esquecer” é o observador, onisciente, dizendo o que aquela mulher tinha em sua mente.

    Na frase final “Na última colherada, afinal, o dulçor das uvas surpreendeu-a com um sorriso.” remete-nos a idéia de que passado o mal entendido, finalmente ela sentia o gosto doce das uvas e retribuía com delicado e nobre gesto de um sorriso, a presença daquela estanha mulher do balcão.

  3. waleska Says:

    griegson,

    acho que você cometeu uma falha que compromete sua interpretação … do texto, conclui-se que o personagem que colocou as passas colocou-as em “seu” prato de sopa, portanto, este só poderia ser a mulher/esposa/namorada do “ele”. Quanto ao fato de “ele” estar realmente olhando para o casaco ou para a moça, isso nunca saberemos realmente. O resto me parece possível diante dos elementos apresentados. Quem sabe o autor não se pronuncia…

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