Ônibus 174 – Soco no estômago

Written by Volponi on 21/1/2003 – 10:44 -

Fui ver este documentário ontem. Nossa. Um soco no estômago. Entrevistas com algumas das reféns do ônibus, com todos os parentes e moleques de rua que conviveram com Sandro, o causador do incidente. Revelador é saber que ele é sobrevivente da chacina da Candelária. Impressionante é tentar entender, pelo menos parcialmente, o porquê dele ter se tornado um menino de rua. Já pensou assistir sua mãe sendo assassinada a facadas na sua frente?

Como bem observou o Léo, o filme não toma nenhum partido óbvio. Às vezes, você fica com pena do marginal. Às vezes, você acha tudo coisa de um drogado maluco. Às vezes, parece que a polícia não tinha muitas opções na mão. Outras vezes, parece que ela só fez burrada. E o interessante é que a produção consegue mostrar tudo isso sem ser ambígua.

Dá medo a mídia em volta de tudo. Pessoas passando, repórteres, câmeras. Na hora em que, finalmente, o sequestrador decide por conta própria sair do ônibus, centenas de flashes disparam. E, exibindo imagens não mostradas na TV, em câmera lenta, cada flash parece um tiro. Amedrontador.

Amedrontador porque não é ficção. É real e, por isso, angustiante. A chave para entender todo esse processo foi dada pelo ex-secretário de Segurança do RJ, Dr. Luís Eduardo Soares. Resumindo, é a história de considerar esses meninos de rua como ‘invisíveis’. A sociedade não quer vê-los, ninguém quer segurar essa batata quente. E aí a polícia, como instrumento do Estado/Sociedade, pode completar o trabalho de ‘limpeza’ daquilo que não queremos ver. Só que, em momentos especiais, alguns desses meninos se rebelam e dão um grito desesperado, querendo ser protagonistas de suas próprias vidas. Nem que seja num sequestro transmitido ao vivo pela TV.

Esse grito serve só pra dizer a nós todos que é culpa nossa a tentativa de negar a existência a um ser humano.

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